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A Alquimia era uma ciência oculta da Idade Média, e seus adeptos mantinham-se ocultos, sigilosos. Difícil era encontrar um para entrar nos trabalhos da Grande Obra.
Esta Grande Obra é o auto-aperfeiçoamento pessoal, o processo psíquico de individuação, maturidade, autonomia, e a Pedra Filosofal e o Elixir da Longa Vida (Panacea) são os efeitos colaterais, as metáforas do obter a ''alma de ouro puro'', o aperfeiçoamento.
Ora, os fanzines de hoje apresentam muita semelhança com as Ordens de Alquimistas medievais.
Também eles estão espalhados pelo mundo, mantendo-se, contudo, unidos, em constante contato uns com os outros através do Correio.
Para entrar neste circuito fechado, é necessário encontrar o endereço de um deles para tocar a todos os outros, ser um Iniciado em seus métodos (como o selo ''vacinado'', que dá para ser re-utilizado) e certos segredos (como a ecoline de hidrográfica, pura Alquimia!). Todo o processo de fazer um zine é um verdadeiro processo alquímico. Primeiro há a consciência, o despertar para um tema-assunto, que é o espelho onde se descobre a pedra bruta (matéria-prima), reflexo e reflexão.
Depois, coletam-se imagens e textos, que é a colheita do orvalho. A partir disso, então, seleciona-se e organiza-se o material pesquisado, pondo ordem no caos da matéria, em sucessivos processos de análise (solve) e síntese (coagula). Passa-se, daí, para o athanor, o forno alquímico no qual se procede a Roda, o cozimento, a espera paciente da inspiração, o tempo necessário para amadurecerem as idéias: é o corvo, o pavão e o cisne.
Surge, então, a estrela brilhante, a idéia genial que anuncia o nascimento do zine e que motiva ao trabalho editorial final. O zine-ouro espalha-se pelo Correio, toca os outros fanzineiros- adeptos, propaga sua idéia, contagia todos que toca e entusiasma, enfim, é a Pedra Filosofal - Pó de Projeção, Panacea-Elixir.
Um circuito esotérico, hermético, fechado ao grande público. Underground. O movimento oculto dos zines equivale ao das Ordens e Sociedades Secretas, pois é um círculo místico de auto-aperfeiçoamento fechado com Iniciados.
O zine é o ouro potável, a Panacea, o ''Ouro legível'' cujo perfume transforma quem o tocar. Seus símbolos são arquétipos do Inconsciente Coletivo, os desenhos são a linguagem dos pássaros, ritmo visual, melodia da Quintessência do ouvido, o argot dos argonautas góticos, qua navegam pelo velocino de ouro, a língua anterior à Torre de Babel.
Os fanzineiros e fan-editores parecem ser os Irmãos do Orvalho Cozido do século XX, buscando aperfeiçoarem-se por meio dos Quadrinhos como Arte.
Quem freqüenta este circuito fechado não tem dúvidas disto.
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